



A igreja do Santíssimo Sacramento, ao Chiado, foi, das igrejas edificadas na zona de intervenção do Fundo Remanescente da Reconstrução do Chiado, a única que não recebeu qualquer apoio para a sua reabilitação e restauro.
Com a uma pequena indemnização do Metropolitano de Lisboa concedida em compensação dos estragos causados pelas obras de prolongamento do Metro, iniciámos as obras de reabilitação da igreja (telhados e reconstrução dos anexos da igreja totalmente destruídos pela águas da chuva). Começou o povo de Lisboa a mexer-se dinamizado pela provocação “Quem outro será se não for você”, e aventurámo-nos também no restauro dos tectos da nave e da capela-mor, concluídos em 1805 por Pedro Alexandrino de Carvalho.
Apesar da dívida que ainda existe – o restauro dos tectos e a lavagem da pedra custou mais de duzentos mil euros, e a Paróquia, quase sem população, está no grupo das mais pobres da cidade de Lisboa – os tectos estão restaurados.
Hoje damos graças a Deus pela pobreza da Paróquia… Ao contrário das Paróquias ricas que de vez em quando retocavam e “restauravam”, infelizmente com meios técnicos muito rudimentares e sem grande consciência do valor artístico do património alvo de intervenção, a Irmandade do Santíssimo Sacramento nunca teve dinheiro para essas coisas… Agora, depois do restauro, aquilo que a gente vê não se vê em nenhum outro lugar: as cores, os anjos, as flores, as figuras do próprio Pedro Alexandrino! Veja agora o que mais ninguém conseguiu ver, seguramente, a partir de meados do século XIX!
Damos graças a Deus, porque a nossa pobreza tem permitido trazer ao de cima a solidariedade do povo cristão da cidade e a sua devoção à Eucaristia. Muitas das ofertas que chegam são gestos de devoção ao Santíssimo Sacramento!
Neste aspecto têm acontecido coisas de fazer rebentar as lágrimas. Claro, em tempo de crise, os mais ricos, com medo, defendem o que têm. Mas os mais pobres não fazem cálculos.
Num destes dias chegaram-nos às mãos o donativo de um grupo de quatro militares americanos, católicos, que tendo estado do Iraque donde saíram com vida e com razoável pecúlio, decidiram ter um gesto de amor para com a Santíssimo Sacramento. Não sei como, souberam que a igreja estava a ser restaurada. O certo é que abriram os cordões à bolsa… Mas impressionante mesmo é a velhota, umas das que ainda reside na Paróquia, que da sua pensão mínima, todos os meses tira alguma coisa para as obras. Porque está quase cega, nunca verá os tectos de Pedro Alexandrino. A sua oferta é tão gratuita como a da viúva pobre do Evangelho.
Estamos tão confiantes que, na igreja, parte dos andaimes – os que não escondem os tectos – continuam montados. As obras não podem parar!
E é assim, ainda com muitos andaimes, que o Senhor Cardeal-Patriarca, no dia 17 de Outubro, às 17 horas, celebrará, na igreja do Santíssimo Sacramento, uma Missa pelas intenções daqueles que, com as suas ofertas, orações e sacrifícios, tornaram possível o restauro dos tectos do Sacramento.