



Uns tempos depois de exigentes bons propósitos, a rotina do dia a dia faz abrandar a vigilância e lá regressamos ao ponto de partida!!! Deus, porém, não nos deixa no atoleiro da nossa mediocridade… Sempre nos concede o tempo favorável da penitência para abandonarmos as obras más, as contendas e as invejas que conduzem á morte; para evitarmos toda a espécie de soberba, vaidade, insensatez e cólera; para observarmos fielmente os mandamentos e os preceitos do Senhor.
Este jubiloso tempo da Quaresma – tempo favorável! – tem início com o gesto austero da imposição das cinzas. Ao impô-las sobre a cabeça, o celebrante diz: “Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar” ou “Converte-te e acredita no Evangelho”. Qualquer das fórmulas nos colocam diante da nossa realidade: criaturas frágeis e pecadoras, sempre necessitadas de conversão.
Será a conversão a fiel observância dos mandamentos e a recusa das obras más? Mais propriamente, uma vida assim, ao jeito de Jesus, é a consequência da conversão. A conversão é uma graça prévia que consiste numa predisposição interior para nos deixarmos conquistar por Jesus para com Ele voltarmos ao Pai, a fim de sermos regenerados pelo Seu Amor.
Mas como pode Jesus conquistar-nos estando nós tão dependentes do êxito, das riquezas, das comodidades que a vida oferece? Só pela prática da penitência se adquire essa tal predisposição interior para nos deixarmos conquistar por Jesus… A Igreja, com sábia pedagogia, propõe-nos alguns compromissos específicos que devemos assumir neste itinerário de renovação interior, o retiro da Quaresma: a oração, o jejum e a esmola.
Das três práticas penitenciais atrás referidas, o Santo Padre escolheu a esmola como tema da sua Mensagem Quaresmal deste ano, apresentando-a como “uma forma concreta de socorrer quem se encontra em dificuldade e, ao mesmo tempo, uma prática ascética que liberta do apego aos bens terrenos”. Bento XVI sublinha uma característica típica da esmola cristã: “deve ficar escondida”. “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita”, diz Jesus. E logo a seguir cita São José Bento Cottolengo que costumava recomendar: “Nunca conteis as moedas que dais, porque eu sempre digo: se ao dar a esmola a mão esquerda não há-de saber o que faz a direita, também a direita não deve saber ela mesma o que faz”.
A Igreja vive das esmolas do povo cristão. Apesar das dificuldades económicas quase generalizadas e dos esforços dos poderosos que, propondo como valores e direitos inalienáveis as maiores aberrações, teimam em pôr a nossa sociedade às avessas, todos os dias experimentamos a generosidade dos fiéis que mantêm o sentido dos valores essenciais. É verdade hoje o que já no século V dizia o Papa Leão Magno: “São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite a todos os verdadeiros cristãos, tanto ricos como pobres, tomar parte na distribuição das esmolas; e embora nem todos possam ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam”. Sendo assim, são também muitos aqueles que vêem cumprir-se em suas vidas a Palavra das Escrituras: “A felicidade está mais em dar do que em receber” (Act 20,35). “O Pai do celeste – diz o Papa – recompensa as nossas esmolas com a Sua alegria. Mais ainda: São Pedro cita, entre os frutos espirituais da esmola, o perdão dos pecados. ‘A caridade – escreve ele – cobre a multidão de pecados’ (1Pd 4,8)”.
No final da sua Mensagem, o Santo Padre dirige-nos estes votos: “Maria, Mãe e Serva fiel do Senhor, ajude os crentes a travar o combate espiritual da Quaresma, armados com a oração, o jejum e a prática da esmola, para chegarem às celebrações das Festas Pascais renovados no espírito”.
Boa Quaresma!