

Junto da igreja, foram edificadas pequenas celas para habitação de alguns clérigos ingleses, entre os quais o venerável Gilberto, com o ofício de se dedicarem em permanência aos louvores da Mãe de Deus. Entretanto, Gilberto Hasting é elevado à dignidade de Arcebispo de Lisboa. Mal assumiu o governo da Diocese, criou a Paróquia de Nossa Senhora dos Mártires da qual se nomeou Prior, cargo que passou posteriormente para o Deão da Catedral, tradição que se manteve até 1338. Arcebispo de Lisboa, continuou a ser guardião zeloso da sagrada imagem e, até ser chamado por Deus a gozar do prémio eterno das suas virtudes, continuou a habitar na sua modesta cela.
A igreja de Nossa Senhora dos Mártires, por pouco tempo, é certo, serviu de catedral. Em virtude disso, até 1716, ou seja, até à criação do Patriarcado Ocidental, no reinado de D. João V, a igreja dos Mártires manteve alguns privilégios, nomeadamente, a organização da Procissão do Corpo de Deus, antes da que era organizada pela Catedral. Também a sua Cruz paroquial precedia a das restantes Paróquias de Lisboa.
Curiosamente, o Rei Magnânimo, embora sendo a causa da cessação de alguns privilégios da Basílica, foi um grande devoto de Nossa Senhora dos Mártires a quem recorreu por ocasião de grave doença. Tal como D. Pedro II, seu pai, estabelecera a título perpétuo para os reis de Portugal, D. João V, mal subiu ao trono, aceitou ser Juiz da Irmandade do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora dos Mártires, em favor da qual fixou uma renda.
Pela sua importância religiosa e pastoral não admira que, nos finais do século XIV, o Papa Urbano XIV tenha elevado a igreja de Nossa Senhora dos Mártires à dignidade de Basílica.
A FUNDAÇÃO
No século XII, o sítio da Pedreira era uma região inóspita, constituída por terrenos calcários, mais ou menos saibrosos, completamente abandonada. Mas em 1755, à data do terramoto que devastou Lisboa, tinha já bastantes famílias residentes e uma vida própria. O sítio da Pedreira designava-se já por Chiado, alcunha de um taberneiro ali estabelecido no século XVI, com bastante clientela, e, ao que parece, bom apreciador do vinho que vendia... Ao fim da tarde já chiava como um chibo.
O Chiado formava um quadrilátero assim delimitado: o ângulo mais oriental era ocupado pelo convento do Espírito Santo da Pedreira, hoje os Armazéns do Chiado; a ocidente, as portas de Santa Catarina, rasgadas na muralha Fernandina da cidade; o ângulo norte era a junção das cercas dos conventos da Trindade e do Carmo; o ângulo sul, no Monte Fragoso, voltada para ocidente, a Basílica dos Mártires, vizinha do convento de São Francisco da Cidade, construído a partir de 1217.
No Monte Fragoso, onde existira em tempos uma necrópole moçárabe, foram sepultados os Cruzados ingleses e os soldados portugueses, mártires da tomada de Lisboa aos mouros. Ali mesmo, a 21 de Novembro de 1147, procedeu D. Afonso Henriques ao lançamento da pedra fundamental dos alicerces da primitiva igreja de Nossa Senhora dos Mártires, dedicada no dia 13 de Maio do ano seguinte, passando a ser esta a data da festa da soberana Protectora.
Assim foi anos a fio até que a comemoração do início das aparições de Nossa Senhora em Fátima, na Cova da Iria, foi elevada à categoria de Festa, a Festa de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Coincidência significativa, aliás. Como relatam os jornais da época, quando naquele Domingo, 13 de Maio de 1917, ao meio dia, a Senhora mais brilhante que o sol, apareceu a Lúcia, Francisco e Jacinta, na Basílica dos Mártires, a abarrotar de fiéis, celebrava-se um solene Te Deum em honra da Padroeira. Actualmente a Festa de Nossa Senhora dos Mártires celebra-se a 13 de Outubro.