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Nossa Senhora Dos Mártires de LisboaParóquia dos Mártires

Basílica dos Mártires: A história e a arte

Naquilo que diz respeito à pintura, a Basílica contém a parte mais nobre do imenso espólio de Pedro Alexandrino de Carvalho. Os retábulos do baptistério, dos 6 altares laterais e das capelas do cruzeiro, e, sobretudo, os tectos, são a explosão do génio do pintor. Os ornamentos dos tectos deixou-os aos discípulos Jerónimo Gomes Teixeira e José António Narciso. Mais recentemente, junto à cimalha das portas que ladeiam a capela-mor, foram colocados dois quadros do pintor João D. Filipe: o Beato Bartolomeu dos Mártires, baptizado na Basílica em 1505 e, em 4 de Novembro de 2001, beatificado pelo Papa João Paulo II, e São Vicente, padroeiro do Patriarcado de Lisboa, ali colocado em 22 de Janeiro de 2005, no encerramento do Ano Santo de São Vicente, comemorativo dos 1700 anos do seu martírio.

Aquando da sua dedicação, eram poucas as imagens. Já se fez referência à Nossa Senhora dos Mártires, uma imagem de roca, com a palma, símbolo do martírio, na mão direita e pegando no Menino com o braço esquerdo, sobre um trono e resguardada por um baldaquino, ambos em talha dourada, colocada na boca do trono, emoldurada a mármore negro, o mesmo da banqueta do altar principal. No nicho aberto sobre o arco do cruzeiro, um crucifixo ladeado por seis castiçais cujas velas se acendiam nas principais solenidades litúrgicas. Ainda um outro crucifixo, o Bom Jesus do Perdão, já anteriormente muito venerado na ermida entretanto integrada na Basílica. A pouco e pouco foram surgindo várias imagens barrocas, policromadas, dos titulares dos diversos altares laterais. A estas imagens juntaram-se outras, expressão da arte e das devoções característica de cada época.

Ao gosto da época são também os três vitrais das oficinas Ricardo Leone colocados, dois a tapar os janelões laterais do coro alto, e o outro na capela do Bom Jesus do Perdão. São peças do início da segunda metade do século passado.

Ainda no que à escultura diz respeito, mais algumas referências... Sobre a porta principal, um baixo relevo representando D. Afonso Henriques dando graças à Senhora dos Mártires, um tema recorrente, obra do escultor Francisco Leal Garcia, discípulo de Alexandre Giusti; os dois púlpitos talhados em boa pedra ; as lavandas de cada uma das sacristias, um deles, o da sacristia da Colegiada, muito provavelmente recuperado da anterior Basílica; e ainda o excelente conjunto escultórico que serve de retábulo da capela-mor, constituído por vários anjos incensando e adorando um ostensório dourado com uma representação do Santíssimo.

António Xavier Machado e Cerveira, organeiro da Casa Real, construiu o órgão da Basílica. Como este construiu muitos outros sobretudo para as igrejas reconstruídas após o terramoto, embora este tenha a particularidade de estar referenciado como o Nº 3 e ter sido o primeiro que o construtor pôs a funcionar. Machado e Cerveira era também um excelente entalhador, arte que exerceu magistralmente no móvel que envolve o instrumento, tornando-o o elemento mais vistoso do templo.

As ferragens, sobretudo as portas em grade de ferro da capela do Santíssimo e do baptistério, merecem ser apreciadas. Infelizmente o gradeamento do adro da Basílica foi retirado pela Câmara Municipal de Lisboa para alargar a Rua Garrett. Levado para os armazéns da edilidade, perdeu-se. Dele, o único registo é o da memória de algumas pessoas que ainda se lembram da sua envergadura e harmonia. As madeiras utilizadas, muitas delas oriundas do Brasil, são também de muito boa qualidade. No pavimento, cortando o frio do mármore, é utilizada a socopira com embutidos em pau-cetim. As teias dos altares laterais - a teia da capela-mor, popularmente chamada mesa da Comunhão, foi retirada na sequência da última reforma litúrgica - são em pau santo. As portas, são umas em mogno, outras em pau santo. Os lampadários em prata, quatro na capela-mor, dois no transepto e seis no corpo da igreja, são excelentes peças de ourivesaria que rematam condigamente a decoração da Basílica.

O conjunto do imóvel tomou a forma rectangular do templo. No primeiro piso há duas sacristias, a da Irmandade e a da Colegiada (Paroquial) e no segundo piso vale a pena visitar o salão nobre. Em qualquer destas salas, em estilo rocaille, os estuques são de muito boa qualidade. Os arcazes das sacristias são em vinhático. Na sacristia da Irmandade estão retratados, por Pedro Alexandrino de Carvalho, cada um dos 12 Apóstolo e Nosso Senhor Jesus Cristo. A torre sineira, em cantaria, construída nas traseiras do edifício, sobressai no conjunto dos edifícios contíguos à Basílica.

As obras de trasladação da Basílica começaram em 10 de Outubro de 1769. A 18 de Março de 1774 foram benzidas a capela-mor, a capela do Santíssimo e a capela do Bom Pastor. A obra ficou concluída em 1784, ainda no século XVIII. Tudo se conjugou para que ficasse para os vindouros como o ex libris da reconstrução pombalina em edifícios religiosos: os melhores artistas, artífices e operários. Os melhores mármores, estuques, madeiras e ferragens. Agora, após o restauro levado a cabo, pode ver-se como o povo cristão soube reagir ao infortúnio do terramoto: a Deus é devido o melhor e o mais belo!

15 de Agosto de 2005
Cónego Armando Duarte

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